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Essa trilha tem história: livro revela as relíquias históricas escondidas na natureza de Guabiruba

Casal de pesquisadores transforma hobby em família em um inventário cultural que resgata memórias de minas de ouro e tradições locais

por Redação
10 de fevereiro de 2026
em Especial
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Essa trilha tem história: livro revela as relíquias históricas escondidas na natureza de Guabiruba

O leito pedregoso do Rio das Águas Cristalinas exige atenção dos trilheiros | Foto: Arquivo pessoal

Para muitos, uma trilha é apenas um percurso entre árvores. Para o casal Andre Barbosa e Claudia Tiscoski, cada passo dado na mata de Guabiruba é um mergulho em um documento vivo. Ele, natural de Curitiba (PR), e ela, de Criciúma (SC), uniram suas trajetórias e, desde 2007, vivem em Florianópolis. No entanto, foi a curiosidade cultural que os trouxe para o Vale do Itajaí.

O projeto, batizado de “Essa Trilha Tem História – Guabiruba”, nasceu de uma paixão antiga que atravessa gerações. “Desde pequeno eu vivia com meus pais na natureza. Quando conheci a Claudia, continuamos sempre indo para as trilhas, fazendo aventuras, acampando, e depois que os filhos vieram isso continuou”, disse Andre.

Acesso a uma das galerias no Lageado Alto; a mineração de ouro na região teve seu auge na década de 1980 com a instalação da empresa Auropaula | Foto: Arquivo pessoal

O que era um hobby familiar começou a tomar forma profissional com o tempo. “Com as redes sociais isso acabou crescendo, muita gente perguntava pra gente como fazer as trilhas, como chegar, mas nem todos queriam ir por conta própria, pois se sentiam inseguros. Então vimos um nicho de mercado legal para trabalhar com algo que a gente gosta”, revelou. Em 2018, eles mergulharam nos estudos para estruturar a empresa Família na Trilha, buscando treinamentos como guia de turismo, condutor de aventura e socorro em áreas remotas.

Encontro com Guabiruba

Mesmo não sendo naturais da cidade, o casal encontrou em Guabiruba um cenário fértil para o projeto. “Guabiruba entrou nessa história porque a gente viu em algum lugar o Pelznickel, que ele era o Papai Noel do mato. Isso já casou com o que a gente gosta, de estar na natureza, aquelas fantasias de barba de velho, e falamos que naquele ano, iríamos para Guabiruba”, relembrou Andre.

Os autores Claudia Tiscoski e Andre Barbosa em frente à Biblioteca Municipal de Guabiruba; projeto “Essa Trilha Tem História” nasceu do hábito do casal de explorar o território com os filhos | Foto: Arquivo pessoal

Ao chegarem, o impacto foi imediato. “Com a ida para Guabiruba vimos que tinha uma enormidade de opções de trilhas no município, e pra nós nunca é só estar na natureza, a gente gosta de entender um pouco mais do que tem naquela trilha, sobre a cultura daquele lugar, as pessoas que passaram por lá, as histórias que ocorreram”, ressaltou. Eles notaram, porém, que faltava um registro que unisse o mapa à história profunda desses locais. “Percebemos que apesar de ter uma natureza exuberante, procuramos informações sobre as histórias das trilhas e encontramos alguma coisa mais da área urbana, da história de forma geral, sem aprofundamento na questão das trilhas”, explicou.

A ideia de transformar esse levantamento em um documento oficial ganhou força com o edital da Lei Aldir Blanc. “A gente já usa essa hashtag há muito tempo (#EssaTrilhaTemHistória), e já tentamos em vários locais fazer algo parecido com isso mas nunca conseguimos. Guabiruba foi o primeiro a se tornar um livro contando as histórias, a cultura e as pessoas que passaram por esses caminhos”, destacou Andre.

Respeito à história local

Para Claudia Tiscoski, coautora da obra, o projeto foi uma oportunidade de valorizar o que muitas vezes passa despercebido no dia a dia. “Pra gente como família, foi um projeto muito gratificante. Sempre é bom visitar Guabiruba, então a gente teve mais essa oportunidade de estar na cidade muitas vezes”, afirmou.

Ela destaca que o olhar externo ajudou a identificar tesouros locais. “Fizemos tudo com muito respeito ao povo e às histórias da cidade, mesmo vindo com um olhar de fora, que muitas vezes acaba vendo valor naquilo que quem está acostumado acaba não vendo, mas respeitando muito quem está ali no dia a dia”, ressaltou. Segundo ela, o livro reflete a essência do casal de estimular o contato com a natureza de forma consciente: “Que isso seja feito com curiosidade, com vontade de entender, de conhecer o lugar, que é muito mais do que só a beleza natural, que já é gigantesca”.

Registro do interior das minas desativadas, que hoje servem como micro-habitat para a fauna local e ferramenta de educação ambiental sobre o passado industrial da cidade | Foto: Arquivo pessoal

Garimpo de histórias

Um dos pontos altos do livro é o resgate da memória oral. “Ter essas pessoas que contam a história da região era fundamental para o êxito desse livro. Começamos indo na biblioteca e na Secretaria de Turismo. Todos apontavam para o nome do Padre Eder Celva”, contou Andre.

Mesmo com a resistência inicial do padre, que dizia não entender de trilhas, o conhecimento fluiu. “Na primeira pergunta que a gente fez ele começou a discorrer e contar detalhes, e foi extremamente produtivo. Aprendemos muito com ele. Tentamos ao máximo preservar todas as informações que ele nos passou, e colocar no livro”, disse Andre. Foi por indicação do Padre Eder que eles chegaram ao Seu Domingo Pontaldi, figura emblemática do Lageado Alto.

“O Seu Domingo Pontaldi foi ideia do Padre Eder. Para ele, era obrigatório falar com ele. Fomos extremamente bem recebidos. Ele é um apaixonado pela história, principalmente das minas. Nos contou detalhes. Ele carrega a carteira de trabalho com ele, fotos dos tempos da mina. É muito orgulhoso dessa história, além de ser um trilheiro extremamente experiente. Conhece cada centímetro de cada trilha de Guabiruba”, descreveu o autor com entusiasmo. Outra figura central foi o Sr. Amarildo, pai do Padre Eder, que apresentou o museu ítalo-guabirubense. “Sem esses relatos, as histórias dessas pessoas, com certeza o livro não teria chegado à profundidade e ao detalhamento que chegou”, ressaltou.

Trecho da subida ao Morro São José, onde a comunidade ergueu uma cruz e 48 capelinhas na década de 1960 como símbolo de fé e proteção contra intempéries climáticas | Foto: Arquivo pessoal

Segurança na trilha

Além da narrativa histórica, o livro traz um rigor técnico inédito para a região. Cada percurso é classificado conforme a norma ISO 3021, que avalia quatro critérios: severidade do ambiente, orientação de navegação, condições do terreno e esforço físico.

Fenda na trilha da Lagoa Azul, considerada o ponto mais crítico e perigoso do trajeto, exigindo o uso de corda e atenção redobrada dos visitantes | Foto: Arquivo pessoal

Esse detalhamento é vital para evitar acidentes em pontos críticos, como na famosa Lagoa Azul. “A trilha mais desafiadora, sem dúvida, é a da Lagoa Azul. Ela tem algumas passagens bem complicadas, por pedras lisas, e realmente tem risco de queda. Mas quando você chega lá, é algo indescritível. A beleza daquele lugar é incomparável”, explicou Andre.

Ele faz um alerta sobre o despreparo que encontrou durante os levantamentos: “Vimos muita gente levando carvão, espeto, muita gente de chinelo, muita gente perguntando qual era o caminho. Inclusive com crianças pequenas, que iam passar sufoco. Além de todas as dificuldades, no meio do caminho tem uma espécie de fenda, que para passar é muito complicado. Tem uma corda, e se você cair ali, deve dar uns 3 ou 4 metros de altura, é bem perigoso. Infelizmente as pessoas não estão cientes da dificuldade dessa trilha”, lamentou.

Seta pintada sobre rocha auxilia na orientação dos trilheiros durante o percurso para a Lagoa Azul | Foto: Arquivo pessoal

Legado para Guabiruba

O resultado final é motivo de orgulho para a família. “Fiquei muito feliz com o resultado desse livro. Pelas fotos legais que conseguimos tirar e mostrar que os locais realmente são bonitos, mas também porque a gente conversou com pessoas incríveis, estudou muito, leu muita coisa”, disse Andre.

Andre e Claudia fizeram questão de agradecer a todos os envolvidos, desde as bibliotecas e museus até o povo de Guabiruba, que classificaram como “extremamente hospitaleiro”. E o convite final fica para a própria comunidade: “Finalizando essa etapa do projeto, estamos longe de ter esgotado o assunto. Fica o convite para que os cidadãos guabirubenses possam revisitar e relembrar sua história, e que tenham vontade de contar muitas outras que não tivemos a oportunidade de colocar nesse livro”, concluiu Claudia.

Serviço: Baixe o Livro Gratuitamente

O e-book digital (PDF) “Essa Trilha Tem História – Guabiruba” traz o mapeamento completo das trilhas, classificações de segurança e o resgate histórico mencionado na matéria.

👉 [CLIQUE AQUI PARA FAZER O DOWNLOAD GRATUITO]

Tags: cachoeiratrilhasturismo

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