A política, em sua essência mais nobre, é a ciência do bem comum. No entanto, raros são os homens que conseguem atravessar o lodo das disputas partidárias preservando a doçura no trato e a firmeza nos princípios. Brusque e toda a nossa região perderam, no último domingo, um desses raros expoentes. O falecimento de Gilmar Doerner não é apenas uma notícia que estampa as manchetes dos portais locais; é um marco que encerra um capítulo e solidifica um caminho.
Minha trajetória política se mescla à do Pastor Gilmar. Desde 2015, quando decidi sair da inércia política e passar a atuação direta, tive nele um norte. Foi sob seu aval e orientação que me filiei ao meu primeiro partido, o PSC. Anos mais tarde, tive a honra de ser seu secretário de Desenvolvimento Social. Vivemos o dia a dia da gestão pública em simbiose: o gabinete do vice-prefeito e o do secretário atuavam em absoluta consonância. Conheci o homem por trás do cargo, e é sobre esse legado que me sinto no dever de escrever.
Sem medo de errar, ouso afirmar que Gilmar Doerner foi a maior referência do conservadorismo que Brusque já conheceu. Mas não de um conservadorismo puramente retórico ou de redes sociais. Ele defendia e praticava os preceitos clássicos: um Estado eficiente, o livre mercado como motor de dignidade e a redução das cargas tributárias. Para ele, o desenvolvimento social não era assistencialismo, mas a promoção das condições necessárias para que os núcleos familiares prosperassem. Ele carregou os valores cristãos — intrínsecos ao pensamento conservador — do altar para a esfera pública com uma organicidade impressionante.
É comum lermos em notas oficiais, como a emitida pela Prefeitura de Brusque, que sua partida deixa uma “lacuna”. Como cientista político, tomo a liberdade de discordar humildemente desse termo. Uma lacuna sugere um vazio, um espaço sem preenchimento. Gilmar não deixou um vazio; ele deixou um legado. O legado é um alicerce. Ele pavimentou um caminho para que novas referências conservadoras que surgem no cenário municipal tenham onde se basear. Ele provou que é possível ter um olhar sensível para a educação, para o esporte e para o social, sem abrir mão da austeridade e dos valores morais.
Mesmo quando o seu mandato foi injustamente interrompido por uma decisão judicial que nos chocou em 2023, Gilmar não se permitiu o azedume. Recebeu a notícia com a mesma resiliência com que pastoreava suas ovelhas. Ali, ele saiu do cargo para entrar definitivamente na história. Sua atuação silenciosa nos bastidores, que já durava duas décadas como conselheiro de políticos em Brusque e Guabiruba, transformou-se em uma autoridade moral que transcendia siglas.
Nossa relação, embora tenha passado por momentos de interferências externas, nunca foi abalada. Continuamos juntos em agendas, reuniões e cafés, discutindo o futuro da nossa região. Gilmar tinha uma ternura que cativava até os adversários. Ele era a prova viva de que a política pode ser feita com excelência e humildade.
Sobre a homenagem que se desenha, o gesto do governo municipal e da Câmara de Vereadores em batizar com seu nome a avenida que corta os fundos da Igreja Calvário é profundamente honroso e simbólico. Tinha que ser exatamente essa rua. Ao passar rente aos alicerces da igreja que ele fundou e presidiu, a via conecta o progresso da cidade ao epicentro de sua missão de vida. Sabemos que Gilmar Doerner é muito mais do que um nome em uma placa; sua estatura não cabe em endereços. Entretanto, essa é uma forma necessária de perpetuar sua história no mapa físico do município e na memória das gerações vindouras, unindo para sempre seu nome ao solo que ele tanto amou e transformou.
Aos que ficam, cabe a missão de levar esse legado adiante. O Pastor Gilmar nos ensinou que a obediência aos princípios é o que separa o político comum do homem de Estado. Que possamos, nós cristãos e conservadores, honrar sua memória não com o luto paralisante, mas com a continuidade de seu trabalho. A saudade é imensa, mas o exemplo é eterno.













