No tabuleiro de xadrez da política brasileira, o silêncio costuma ser mais eloquente que o grito. O recente movimento do governador Tarcísio de Freitas, ao arrefecer as expectativas sobre uma candidatura presidencial imediata para focar na reeleição em São Paulo, não deve ser lido como hesitação, mas como prudência estratégica. Para o campo conservador, o recuo de Tarcísio é o reconhecimento de que, na política, o tempo da gestão e o tempo da eleição raramente caminham no mesmo passo.
O primeiro fator é a preservação do maior ativo da direita brasileira: o estado de São Paulo. A história política nos ensina que o poder exige uma base territorial sólida. Ao optar pela reeleição, Tarcísio aplica o conceito do “certo pelo duvidoso”. Ocupar o Palácio dos Bandeirantes por oito anos permite a consolidação de um modelo de gestão técnica e conservadora que serve de antítese ao modelo estatista federal. Entregar São Paulo ao projeto de poder do PT — que cobiça o estado para sua hegemonia de longo prazo — seria um erro estratégico imperdoável. A direita não pode se dar ao luxo de perder sua principal “casinha” no tabuleiro nacional em nome de uma aventura presidencial que, hoje, enfrenta uma máquina federal pesada.
Não podemos ignorar a dinâmica interna do bolsonarismo. A ascensão do nome de Flávio Bolsonaro para 2026 serve como um para-raios necessário. Ao se colocar como herdeiro direto do capital político de seu pai, Flávio blinda Tarcísio do desgaste ideológico. Para a ala mais radical, qualquer movimento precoce de Tarcísio seria lido como deslealdade; ao recuar, ele mantém a imagem de “fiel escudeiro” e evita uma guerra civil dentro da oposição que só beneficiaria a esquerda.
Do lado oposto, o governo federal joga sua “bala de prata”: a PEC do fim da escala 6×1. Trata-se de uma jogada de populismo laboral clássica, desenhada para criar um dilema moral e eleitoral na direita. Com aprovação popular superior a 70%, a medida obriga a oposição a escolher entre o rigor fiscal (defendido pelo empresariado) e o apelo das massas. Tarcísio, em São Paulo, consegue se distanciar desse embate legislativo direto, focando em entregas tangíveis enquanto o Congresso Nacional se digladia. Ele preserva sua imagem de gestor sensato, enquanto outros nomes da direita terão que se desgastar no front de Brasília para conter os danos econômicos dessa proposta.
Em suma, o recuo de Tarcísio é uma aposta na longevidade. Ele entende que, se o bolsonarismo raiz tende a passar por uma metamorfose até 2030, a figura de um conservador lúcido e realizador será o desfecho natural para um país exausto da polarização retórica. Para a direita, queimar seu principal quadro técnico agora seria um sacrifício desnecessário. O recuo é, na verdade, um reagrupamento de forças. Tarcísio não saiu da corrida; ele apenas escolheu o melhor lugar para assistir à largada: a cadeira de governador do estado mais importante da federação.














