Pelznickel Parte VI – Belzenickel, Pelznickel, o servo Ruprecht e o Papai Noel

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O pesquisador e escritor alemão Lothar Wieser conta que conhece a expressão “Belzenickel” desde a sua infância no Palatinado. É uma figura conhecida, que hoje em dia aparece como Knecht Ruprecht (servo Ruprecht), acompanhando São Nicolau, a quem está fortemente ligado. Segundo Wieser, tanto a palavra quanto o costume existem em toda a região sudoeste da Alemanha e a grafia “Belzenickel” ou Pelznickel são igualmente aceitas e, etimologicamente, derivam do alto-alemão médio “pelzen” que significa bater, dar pancadas.

Wieser informa que, nos costumes vigentes na sua infância, e ainda antes disso, não havia a figura de São Nicolau, apenas o personagem “Belzenickel” com chapéu de ponta e barba branca. Normalmente ele estava coberto por um manto escuro (gepelzt), vestia um gorro escuro, e carregava um saco com presentes e um molho de ramos secos, símbolo do castigo que era usado com as crianças de mau comportamento, pois ele batia com os ramos secos nas costas e/ou bunda dos que não se comportaram. Neste mesmo sentido colabora o badense Alois Riffel . Segundo ele, na região onde ele cresceu não existia o Papai Noel vermelho que conhecemos na atualidade, mas sim o Ruprecht, um homem de barba branca comprida, que vestia um sobretudo de cor escura, com cordão amarrado na cintura e com capuz pontudo cobrindo a cabeça. Trazia numa mão um saco com os presentes e na outra uma vara ou ‘molho de galhos secos’.

O escritor Ricardo José Engel ainda tem memórias do Pelznickel em sua terra natal, Peritiba, Santa Catarina. Segundo ele, o costume do Pelznickel teria origem nos imigrantes saídos da velha pátria germânica, das cidades pertencentes à região da Renânia (pelo menos entre os imigrantes do Estado do Saarland, no sudoeste da Alemanha). De acordo com Engel (2018), “o Pelznickel era um elemento de natureza cultural também vinculado ao folclore, mas, sobretudo, à tradição religiosa, e usado como meio de garantir a boa disciplina entre a garotada ao longo do ano. Afinal, era responsabilidade do Pelznickel recompensar crianças que tinham se comportado bem ou então castigar aquelas que tinham apresentado mau comportamento. Bom e mau ao mesmo tempo. Em Peritiba, fundada em 1919 por colonizadores alemães oriundos do Rio Grande do Sul, as crianças comportadas ganhariam doces e pequenos presentes no Natal, já as indisciplinadas receberiam um corretivo com a varinha do Pelznickel. Portanto, o papel desse personagem cultural era duplo e de grande efeito disciplinador e, desse modo, vinculado à própria educação doméstica em geral. Mas parece fora de dúvida que o seu papel predominante era no sentido de intimidar, assustar e ameaçar aquelas crianças de conduta inadequada, visando a correção do comportamento. Nas semanas que antecediam a Noite de Natal, era ‘grande a expectativa das crianças pela visita do Pelznickel’, num misto de medo e ansiedade”.

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O Pelznickel – interpretado por um adulto da cidade ou da vizinhança – “andava por determinadas ruas, vielas, ou visitava algumas casas para grande agitação da meninada. Com uma voz grossa e disfarçada, que se somava a sua temível aparência, o Pelznickel se movia aos solavancos, com passos intencionalmente barulhentos, sustentando, com uma das mãos um saco sobre seu ombro e trazendo, na outra, a ameaçadora varinha – essa não podia faltar -, cuja intimidação, em alguma medida, era compensada pela alegre expectativa dos doces ou presentes supostamente contidos no saco. Com a varinha, o Pelznickel batia ao longo do caminho em cercas, chão, postes, vegetação, enfim, em tudo o que encontrava, como forma de sinalizar sua chegada e intimidar a gurizada”. E ele completa: “as crianças mais assustadas fugiam de perto e se escondiam na casa. Eram, logo depois, ‘resgatadas’ pelos pais, que as juntavam às demais para recitar ao Pelznickel breves orações ou pequenos versos, além de responder a uma rápida sabatina sobre ‘bom comportamento’. Finalmente, o Pelznickel abria o saco e brindava as crianças, agora já menos assustadas, com doces entregues em suas mãos ou atiradas pelo chão da casa. A depender da condição da família, também poderiam ser distribuídos pequenos presentes”.

A descrição estética apresentada por Engel (2018) sobre o Pelznickel guarda certa semelhança com o descrito por Baasner, Riffel, Wieser e Piazza. Este último, ao se referir à Festa de Natal dos tempos passados de Brusque e Guabiruba, escreve que: “na noite da véspera de Natal, as casas eram visitadas pela imponente e austera figura do Papai Noel, envergando roupas maltrapilhas, com a sua longa e venerável barba branca, com seu chapéu de abas largas, bem surrado, calçando botas bem gastas, vara e correntes na mão – símbolo do castigo para a criançada alvoraçada – e com um amplo saco nas costas, habitualmente acompanhado pela Christkind”(PIAZZA,1960, p. 164).

O escritor alemão Baasner (1992) em sua obra Kleine Geschichte des Weihnachtsmanns (Uma Pequena História sobre o Homem do Natal), informa que, no princípio, o servo Ruprecht, também conhecido como Weihnachtsmann, aparecia como ajudante do São Nicolau, mas, com a minimização do papel do São Nicolau promovido pela igreja após a Reforma Protestante, ele passa a ser visto acompanhando a Christkind. Na maioria das vezes, o servo Ruprecht é retratado como um acompanhante de aparência grotesca, vestido em um manto de pele, formando um contraponto com a figura leve de luz da Christkind (numa alusão entre o claro e o escuro, o leve e o pesado…). Segundo o autor, com o passar do tempo o servo Ruprecht passou a apresentar muitos traços humanos e foi se transformando numa figura simpática, todavia sempre mantida em segundo plano, já que a Christkind é o centro das atenções dos rituais natalinos.

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