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Quem é o pai da criança?

por Leandro Hyarup
13 de março de 2026
em Opinião
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Quem é o pai da criança?

Shutterstock

A população de Brusque e região assistiu, nos últimos dias, a um espetáculo que oscila entre o alívio institucional e o conhecido oportunismo eleitoral. O anúncio da habilitação do serviço de oncologia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Brusque — que atenderá diretamente a demanda de Guabiruba e região — é, sem dúvida, o avanço mais significativo na saúde pública local da última década. No entanto, antes mesmo que o primeiro paciente fosse acolhido, iniciou-se uma disputa narrativa para determinar quem detém a “paternidade” da conquista: o Governador Jorginho Mello (PL) ou a Deputada Federal Ana Paula Lima (PT).

Para entender a relevância do fato, é preciso olhar para a cicatriz que essa carência deixou. Durante décadas, o tratamento oncológico foi sinônimo de estrada. Pacientes debilitados por sessões de quimioterapia precisavam enfrentar a Rodovia Antônio Heil ou a Ivo Silveira em direção a Blumenau ou Itajaí. O “custo humano” desse deslocamento era imensurável; a fadiga do trajeto muitas vezes sobrepunhava-se aos efeitos colaterais do tratamento, ferindo o princípio da dignidade e da descentralização do SUS. A demanda por um centro oncológico em nossa região nunca foi um pleito de luxo, mas uma necessidade técnica baseada na densidade populacional. Hospitais como o Azambuja e o Imigrantes prepararam-se estruturalmente, investindo em equipamentos e corpo clínico, aguardando apenas o “canetaço” burocrático da habilitação que, por anos, parecia travado em gavetas governamentais.

Na semana passada, o Governador Jorginho Mello esteve na região para anunciar que o Estado finalmente autorizou os repasses e a contratualização dos serviços. Trouxe consigo a narrativa de que a gestão estadual “destravou” a saúde. Contudo, a contraofensiva veio rápido. A Deputada Ana Paula Lima, principal interlocutora do Ministério da Saúde em Santa Catarina, tratou de lembrar que a portaria que efetivamente libera o recurso federal — o combustível financeiro do serviço — é uma canetada da União. A visita da deputada a Brusque hoje reforça essa marcação de território. O que assistimos, então, é a velha política do “quem chegou primeiro para a foto”. Enquanto o Centro Administrativo em Florianópolis tenta capitalizar a entrega como uma vitória da gestão atual contra a lentidão federal, o Governo Federal busca esvaziar o palanque do governador, reivindicando para si o mérito da viabilidade financeira.

É lamentável que um tema tão sensível seja utilizado como massa de manobra. A “politicagem” sobre o sofrimento de quem luta contra o câncer é um desrespeito àqueles que bateram de porta em porta e que, infelizmente, não sobreviveram para ver este dia. A verdade técnica é que a oncologia em Brusque não nasce de um esforço isolado. Ela é fruto de uma convergência: a competência dos hospitais, a pressão incessante da sociedade civil, a anuência do Estado e a homologação da União. Tentar isolar um desses atores é ignorar como funciona o federalismo brasileiro. Nenhum deles fez mais que a obrigação, embora tenham demorado muito para cumpri-la.

Apesar do ruído e da briga por “likes” e manchetes, o saldo final é de celebração. Brusque e Guabiruba entram em um novo patamar de atendimento. Ter o serviço “em casa” significa maior adesão ao tratamento e, consequentemente, maiores chances de cura. A “criança” pode até ter muitos pretendentes a pai, mas a verdadeira mãe dessa conquista é a resiliência da população regional, que nunca aceitou o “não” como resposta. Que os políticos continuem brigando pelo crédito, desde que as máquinas funcionem e o cidadão não precise mais de uma ambulância para buscar o direito à vida em outra cidade. Hoje, o Vale do Itajaí Mirim respira com um pouco mais de esperança.

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