Março de 2020. O Brasil ainda se perguntava se realmente seria necessário tomar alguma medida mais drástica contra aquele vírus que chegava da China e devastava a Itália. As universidades mantinham as aulas, as pessoas circulavam livremente pelas praças. Festas aconteciam. Missas também. Eram dias normais… ou quase.
Mas logo tudo mudou.
A chave virou na cabeça dos catarinenses. O Governo do Estado agiu e o então prefeito de Guabiruba, Matias Kohler, interrompeu as férias e veio direto para o centro do problema. Sua fala, proferida na sessão da Câmara Municipal naquela semana, ficou marcada na memória dos guabirubenses: “Estamos na linha do vírus. Não vamos escapar dele. A ideia não é criar pânico, mas nos prepararmos para o que está por vir. Isolamento é a regra máxima.”
Seis anos depois, é impossível ler essas palavras sem sentir o peso daquele momento.
O Brasil já sabia, mas ainda duvidava
O coronavírus não era novidade no noticiário. Havia semanas que o mundo assistia, em choque, às imagens da Itália colapsando. No Brasil, o primeiro caso oficial tinha sido confirmado em 26 de fevereiro de 2020: um homem de 61 anos, de São Paulo, que havia viajado à região da Lombardia. A primeira morte brasileira aconteceu em 12 de março.
Em Santa Catarina, os primeiros casos foram confirmados em 12 de março, e na semana seguinte, no dia 17, o governador Carlos Moisés decretou situação de emergência após a confirmação de transmissão comunitária no estado, ou seja, casos sem histórico de viagem, circulando entre a população. Aquilo acelerou tudo.
Em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde já havia declarado a covid-19 uma pandemia. O mundo estava em guerra contra um inimigo invisível.
Guabiruba fecha as portas
No dia 17 de março, a Prefeitura de Guabiruba publicou o Decreto Municipal nº 1.101/2020. Era o documento que oficializava uma nova realidade: suspensão das aulas em todas as escolas municipais, fechamento do comércio por sete dias corridos a partir de quinta-feira, dia 19, encerramento de academias, salões de beleza e quaisquer atividades em locais fechados. Todos os eventos foram proibidos: festas de aniversário, casamentos, cultos religiosos, reuniões de qualquer natureza.
Os servidores públicos municipais foram dispensados das atividades, mas não de férias, o prefeito frisou isso com cuidado. “Não são férias. É uma dispensa para reduzirmos as chances de contágio. Os servidores não estão dispensados para irem a festas, passear ou fazer reuniões de amigos. Se o isolamento for descumprido, medidas punitivas serão adotadas”, disse Kohler.
A então secretária de Saúde, Patrícia Heiderscheidt, trouxe uma notícia que gerava alívio e apreensão ao mesmo tempo: até aquele momento, Guabiruba não tinha nenhum caso suspeito ou confirmado. Mas os postos de saúde já estavam sentindo a pressão. Equipes foram remanejadas, contratações emergenciais iniciadas, e consultas e exames de rotina, cancelados.

Festa Italiana não aconteceu
Entre as notícias que marcaram a edição do Zeitung de 20 de março, uma tinha um sabor de tristeza diferente: o cancelamento da 10ª Festa Italiana de Guabiruba, que aconteceria no sábado, dia 21.
“Nosso sentimento, como comissão organizadora, é de tristeza, mas também de dever cumprido com responsabilidade. Teremos que arcar com as despesas do cancelamento, que são muitas, porém, neste momento, a prioridade é a saúde pública”, declarou Amilton Stedile, diretor da Associação Cultural Italiana de Guabiruba (ACIG).
Era a décima edição, e ela não aconteceria. O evento que deveria ser celebração virou símbolo daquilo que o vírus roubava: os encontros, a cultura, a alegria coletiva. Stedile terminou com uma promessa: “Em 2021 realizaremos a 10ª Festa Italiana com muita alegria e saúde.”

Farmácias sem álcool gel, prateleiras vazias
Quem foi a uma farmácia de Guabiruba na semana de 16 de março de 2020 sabe exatamente o que encontrou: prateleiras vazias onde deveriam estar o álcool gel e as máscaras. Na Guabifarma, no Centro, foram vendidas 200 unidades de álcool gel em um único dia.
Os preços que sobraram eram de fazer engasgar. O que existia chegava a cinco vezes o valor normal. “O álcool já vem com o preço superfaturado para nós, uma média de cinco vezes mais do que o normal”, relatou o farmacêutico Roni Ferreira. O Procon de Guabiruba, mesmo com atendimento presencial suspenso, alertou: aumento acima de 50% do preço habitual caracteriza prática abusiva.
Na semana seguinte, os preços ainda assustavam: uma caixa de máscaras que custava R$ 0,25 a unidade havia triplicado para R$ 0,75. O álcool gel saiu de R$ 9,00 para R$ 17,00.
“A onda vem”
Ainda na edição de 20 de março, o Zeitung publicou uma entrevista que se tornou referência para a comunidade: o médico infectologista Ricardo Alexandre Freitas, que havia realizado uma webconferência sobre o coronavírus, explicava tudo com uma clareza que poucos ainda tinham.
“Nós sabemos que uma pessoa contaminada, em 10 a 15 dias, pode chegar a contaminar quase mil pessoas, se estiver caminhando pela rua normalmente. Se estiver confinada na sua residência, ela passa para quatro pessoas. O que a gente quer nesse momento é que as pessoas realmente tenham cuidado”, dizia ele.
A imagem que ele usou era poderosa: “Eu digo que isso parece um tsunami. Temos que imaginar o pior cenário possível para que, no final de duas a três semanas, tenhamos o melhor cenário possível.”
Naquele contexto em que fake news circulavam livremente, a Secretaria de Saúde e a Vigilância Epidemiológica de Guabiruba trabalharam incansavelmente para desmentir boatos e orientar a população.

Linha de frente
Por trás dos boletins frios com números de monitorados, havia uma mulher que desde 1999 dedicava sua vida à saúde de Guabiruba. A enfermeira Ana Lúcia Tolentino, responsável pela Vigilância Epidemiológica municipal, era uma das que estavam na linha de frente, sem saber exatamente o que viria.
“Na época da Influenza H1N1 teve um pequeno alvoroço. Dessa forma tão alarmante, não”, admitiu em entrevista ao Zeitung, na edição de 27 de março.
A semana de 23 de março começou com seis pessoas monitoradas. Na quarta-feira, 25, eram 16. Na quinta-feira, 26, já eram 22. Nenhuma com diagnóstico confirmado. Eram pessoas que haviam viajado, tido contato com suspeitos ou apresentado sintomas de síndrome gripal. Mas os números subiam a cada boletim diário, que a Prefeitura passou a emitir justamente naquela semana.
“Tanto nos profissionais de saúde quanto na população, o medo está consumindo a energia. Unidos temos força para vencer o Covid-19”, disse Ana Lúcia.

Primeira morte em SC
Na edição de 27 de março, uma notícia pesada: na noite de quarta-feira, 25, o Governador Carlos Moisés confirmou a primeira morte por Covid-19 em Santa Catarina. Era um homem de 86 anos, de São José.
O estado tinha, naquele momento, 149 casos confirmados, um salto enorme em relação aos 16 da semana anterior.
Bolsonaro x Moisés
Naquela semana de 23 a 27 de março, uma crise política se sobrepôs à crise sanitária. Na noite de terça-feira, 24, o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento pedindo que governadores e prefeitos abandonassem o isolamento social, o fechamento do comércio e o que ele chamou de “conceito de terra arrasada”.
A reação foi imediata. O governador Carlos Moisés disse estar “estarrecido”. No dia 25, gravou um vídeo anunciando mais sete dias de quarentena. “Nós sabemos que precisamos equilibrar a retomada econômica com as medidas de restrição, para que não haja contaminação em massa, porque não há nenhum sistema de saúde no mundo que tenha conseguido dar resposta à pandemia”, declarou.
O prefeito de Guabiruba, Matias Kohler, tentou equilibrar: “O posicionamento do presidente tem um fundamento de razão. A forma de se expressar, provavelmente, foi equivocada. Este momento talvez ainda não seja o propício para abrirmos o isolamento social.”
Em Guabiruba, a decisão foi clara: isolamento mantido até 31 de março, com retorno previsto para 1º de abril. Aulas suspensas até 19 de abril. Dois estabelecimentos já haviam sido notificados por descumprir o decreto. A Polícia Militar advertia: quem abrisse as portas poderia ser multado e ter o estabelecimento lacrado.
Cidade em silêncio
O padre Eder Celva, guabirubense do Lageado Alto que havia assumido a paróquia do Santíssimo Sacramento de Itajaí poucos meses antes, descreveu em artigo publicado no Zeitung o que nenhum número conseguia capturar:
“Estamos diante de um marco histórico. Já havíamos passado na região por epidemias como a gripe espanhola, o tifo, a varíola, a malária, mas em nenhuma delas há notícias de que todas as celebrações Eucarísticas de nossa arquidiocese tenham sido suspensas indeterminadamente.”
“Pela janela, eu tenho a impressão que a cidade está morrendo. Mas não — em tudo isso é possível sentir melhor a vida que irromperá. As árvores em volta, viçosas e floridas, e um sabiá cantarolava uma melodia de esperança.”
Solidariedade e reinvenção
Não foi só medo. Naquelas duas semanas, Guabiruba e a região também descobriram formas de resistir com criatividade e afeto.
A Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro passou a transmitir as missas ao vivo pelo Facebook e Instagram. O aniversariante Lucas Amaro ganhou uma festa surpresa virtual, organizada pela noiva Margarete Wippel num grupo de WhatsApp. Diego Brigo improvisou sua academia na garagem do prédio. Psicólogas como Sara Cuba e Taciane Schlindwein se reinventaram em atendimentos por videochamada e dicas nas redes sociais.
Medo
Na edição de 3 de abril, Guabiruba ainda respirava com certo alívio: nenhum caso confirmado no município. Mas o cerco se fechava. Treze moradores eram monitorados em casa pela Vigilância Epidemiológica, dois casos suspeitos tinham sido descartados após exame, e Santa Catarina já contabilizava quatro mortes. No Brasil, os óbitos chegavam a 299.
O presidente da CDL Guabiruba, Giovani Ricardo Piaz, sintetizava o drama do empresariado local com clareza brutal: “O medo do comerciante em geral é não poder pagar suas contas, ter que demitir seus colaboradores e, principalmente, não ter o aporte do governo. Mesmo com as portas fechadas, as contas, os boletos chegam para serem quitados.”
Os primeiros dois casos
A confirmação que todos temiam e esperavam chegou na quarta-feira, 8 de abril. Dois homens testaram positivo para a Covid-19 em Guabiruba: um de 91 anos, internado no Hospital Azambuja, e outro de 21 anos, em casa, sem maiores complicações. “Ambos estão bem”, informou a Secretaria de Saúde na tarde do dia seguinte.
Era uma combinação que dizia muito sobre o vírus: atacava sem escolher idade. O idoso de 91 anos, com toda a fragilidade que nove décadas de vida carregam; e um jovem de 21, que provavelmente nem imaginava que estaria entre os primeiros infectados da cidade. Outros quatro casos suspeitos aguardavam resultado.

Quarentena
Enquanto o vírus avançava, a vida em casa foi tomando forma própria. O Zeitung de 10 de abril perguntou o que os guabirubenses estavam fazendo na quarentena.
Ivanir Hang, 52 anos, do Centro, resumiu com uma honestidade desarmante: “O que a gente, como alemão, costuma fazer mais, principalmente neste tempo de quarentena: eu posso resumir em uma palavra, comer. Começamos limpando a casa, depois partimos para fazer muita comida boa. Você pega o livro de receita que era da sua mãe, busca fazer a cuca caseira.”
A empresária Malu Giusto, do Sítio do Sol, via o hotel 100% fechado e buscava otimismo onde podia: “Nos reinventamos diariamente. Pescamos, fazemos benfeitorias para o hotel e estamos trabalhando nosso site e redes sociais. Não podemos parar!”
O Morro de São José, ponto de peregrinação tradicional na Semana Santa, foi interditado pela Prefeitura após o fluxo de visitantes aumentar perigosamente. O prefeito Matias Kohler foi direto: “Se as pessoas não respeitarem, a polícia vai ter que agir com mais rigor. Acima de duas pessoas, caracteriza aglomeração.”

Indústria no limite
Para Guabiruba, cidade de vocação têxtil, a pandemia tinha um sabor ainda mais amargo. Juliano Schumacher, presidente da Guabifios, não poupou palavras ao jornal: “Com certeza aqui em Guabiruba vai haver um número significativo de demissões. Aqui é predominantemente têxtil, e muitas prestadoras de serviços como as tecelagens, onde a mão de obra é muito impactante sobre o faturamento, fatalmente deixarão de ter recursos para pagar sua mão de obra e, na sequência imediata, a primeira providência é o desligamento. O quadro é gravíssimo, efetivamente nunca vimos, e espero que talvez nunca mais vejamos uma situação similar a essa.”
Franciane Abreu de Souza, costureira que trabalhava numa empresa de malhas de Guabiruba, viveu na pele o que Schumacher previa. Quando a empresa retomou, ela e mais 11 colegas receberam a notícia: todos demitidos. “Eles nos avisaram que não tinha como manter a gente sem serviço. Ficamos todos sem chão. Fiquei muito abalada, chorei muito. A ficha não caiu.” Ela estava há cinco anos na empresa.

Primeira morte em Guabiruba
Na edição de 15 de maio, o Zeitung publicou uma matéria que carregava, no próprio título, a contradição que a pandemia impunha ao cotidiano: alegria e dor. Dois guabirubenses, dois caminhos completamente opostos.
Arno Debatin, 90 anos, havia vencido a Covid-19. Depois de 16 dias internado no Hospital Azambuja, ele saiu de cadeira de rodas pelo corredor do hospital enquanto duas fileiras de profissionais de saúde aplaudiam e acenavam. “Foi lindo. Duas filas de enfermeiras e ele no meio”, contou sua esposa Nair Joana, de 88 anos. A maior dificuldade de seu Arno, contou ele mesmo, não havia sido o vírus em si — mas a solidão. “Fiquei sozinho, sozinho, sozinho. Não podia entrar ninguém. Eu e a cama. Às vezes, a enfermeira. Dormia um pouco, ali a pouco acordava. A primeira noite, meu Deus do céu, o que eu passei.”
Mas nem todos tiveram o destino do seu Arno.

Na manhã de segunda-feira, 11 de maio de 2020, às 8h30, Genésio Schweigert, 71 anos, faleceu no Hospital Azambuja. Era o primeiro morador de Guabiruba a ser levado pela Covid-19, e a primeira morte pela doença registrada em toda a região.
Genésio era aposentado e ajudava a esposa Iria Maria, de 68 anos, na IRGE Noivas, loja que levava as iniciais dos dois nomes, aberta ainda na década de 1980 na Rua 10 de Junho. Deixou também o filho Alecksandro, de 44 anos, e a neta Poliana, de 19.
A família não sabia ao certo onde ele havia contraído o vírus. Saía pouco, talvez uma ida a Brusque, talvez o contato com um amigo próximo à lotérica. “Eu disse que não estava entendendo. Que não entendia onde esse homem pegou isso. Ele estava só dentro de casa, saiu uma vez”, disse Iria, em entrevista ao Zeitung.
O caminho até a morte foi lento e doloroso para quem ficou do lado de fora. Iria o via pelo vidro da UTI, “já cheio de aparelhos, já inconsciente”. A última vez que o viram consciente foi por uma videochamada, quando ele já estava na UTI. “Caíram as lágrimas nele. Essa foi a última vez que a gente o viu”, lembrou ela.
O sepultamento seguiu as rígidas determinações sanitárias para mortes por Covid-19. Não houve velório. O caixão veio com a funerária diretamente ao cemitério. “Não pode ver o rosto, nada. Muito ruim. Muito duro”, disse o filho Alecksandro, entendendo a gravidade, mas sem conseguir esconder a dor. “A gente gostaria de um enterro normal.”

O presidente da CDL Guabiruba, Giovani Ricardo Piaz, ao comentar as vendas do Dia das Mães, que haviam surpreendido positivamente, não esqueceu de registrar o luto da cidade: “Guabiruba está de luto com a primeira morte por Covid-19. A perda do senhor Genésio Schweigert, que era um comerciante do nosso município, é muito triste para a cidade. Ela deve servir para que todos redobrem os cuidados.”
Naquele momento, o boletim epidemiológico de Guabiruba registrava: 6 casos confirmados, 4 recuperados, 8 suspeitos aguardando resultado, 1 óbito. Mais de 550 pessoas haviam passado pela Casa da Cidadania em busca do Seguro-Desemprego desde meados de abril. Santa Catarina somava 4.332 casos confirmados e 78 mortes.
A pandemia havia deixado de ser só um número. Tinha nome, endereço, família, e uma loja na Rua 10 de Junho que guardaria para sempre a memória de quem a construiu.
Seis anos depois
Hoje, olhando para aquele período, é quase impossível não sentir um aperto no peito. Era o retrato de uma cidade que, sem saber exatamente o que estava por vir, fez o que pôde. Fechou as portas, ficou em casa. Mandou mensagem de WhatsApp para os avós. Assistiu à missa pelo celular.
Em menos de dois meses, Guabiruba foi da incerteza ao primeiro luto. Da quarentena às demissões. Do medo abstrato à dor concreta. O vírus, que parecia distante nas primeiras semanas, mostrou que não escolhia cidade pequena nem cidade grande.
Aqueles meses de 2020 foram o começo de uma história que Guabiruba, como o mundo inteiro, nunca mais vai esquecer.




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